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	<title>Entre Ossos e Palavras. &#187; ensaio</title>
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		<title>Dionísio e Hermes.</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Feb 2008 18:22:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ossosepalavras</dc:creator>
				<category><![CDATA[ensaio]]></category>

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		<description><![CDATA[Quase me perdia em sonhos, quando a baforada do passageiro de trás me fez voltar a realidade, e da pior maneira. O cheiro de álcool fermentado no estômago junto com algum alimento – me parecia cebola-, vinham diretamente na minha direção. Não havia outros lugares, o ônibus as sete da noite é mais lotado que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ossosepalavras.wordpress.com&blog=2689542&post=3&subd=ossosepalavras&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal"><span></span>Quase me perdia em sonhos, quando a baforada do passageiro de trás me fez voltar a realidade, e da pior maneira. O cheiro de álcool fermentado no estômago junto com algum alimento – me parecia cebola-,<span> </span>vinham diretamente na minha direção. Não havia outros lugares, o ônibus as sete da noite é mais lotado que loja em dia de liquidação, e a preguiça despertava só de me imaginar ficando em pé. Para contornar a situação, adotei a seguinte estratégia: inspirava e expirava no ritmo do dito. Se continuasse inspirando a expiração dele, ficaria bêbado. Se alguma sanguessuga aplicasse suas ventosas na veia daquele passageiro, iria ter de mudar de nome para: pingassuga! Não riu? É&#8230; Eu tentei.</p>
<p class="MsoNormal"><span></span>O camarada vez por outra soltava palavrões, xingava os ciclistas, os passageiros lentos no embarque, a demora do motorista, mas para não ficar sozinho no tribunal, e sem ter com quem conversar, aproveitou a proximidade e a suposta liberdade, engatando conversa com o cobrador.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Aí chefia, que demora né?</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- É.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Pô, porque demora tanto?</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Horário de pico cara, sempre entra muita gente.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Eu sentei nesse banco faz duas horas e não chego em casa, cara!</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Vai de táxi! – grita alguém.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">(Todos riem)</p>
<p class="MsoNormal"><span></span>O interessante do bêbado, e isso vale para todos que ficaram nesse estado, é que sempre pensamos discutir assuntos importantíssimos. Quantas vezes não presenciei <i>mistérios fantásticos sobre o mundo, sobre a vida, sobre as pessoas,</i> serem revelados na mesa de bar?! Uma centena. Como por exemplo, o fato de na adolescência descobrirmos que a maior santinha, a deusa, o monumento do 2º grau, a virgem acompanhada dos bajuladores, digna de todo o respeito, possível e imaginável, era na realidade, a amante do professor de física. Mas logo ele? &#8211; Nos perguntamos nessas horas. Deprimente. Ou seja, idiossincrasias tão inconscientes que não renderiam metade da folha de caderno sujo, tornam-se <i>grandes</i> <i>descobertas.</i> A ressaca moral, nada mais é que o arrependimento por expormos pensamentos dessa forma &#8211; como nesse texto. O diálogo continua.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Vai pra merda, porra! – diz, olhando pra traz com olhar vazio.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">Volta-se para o cobrador e pergunta: &#8211; Amigo, você tem família?</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Tenho.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Pô, cara, eu tenho dois filhos&#8230; Uma menina de nove e um menino de 7. São a minha vida!</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Eu não tenho filhos. Sou só casado. Minha mulher é minha família.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Ah! Mulher passa cara, filhos não, são tudo que a gente tem mesmo! (filosofa)<span> </span>Cobrador, você tem folga na semana?</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Só no domingo.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Pois é, a minha é hoje e amanhã. Por isso que eu bebi! Hoje é meu dia de folga, cobrador! Trabalho a semana inteira cara! Fudido! Só tomo cerveja no fim-de-semana. Não é todo dia que eu bebo não cara!</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Eu não bebo.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Cobrador, cansei de te chamar assim! Qual teu nome?</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Hermes.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Meu nome é Dionísio, prazer.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">(Silêncio)</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Há quanto tempo você trabalha como cobrador, Hermes?</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Tem 12 anos.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Cara, é tempo pra caramba. O serviço de cobrador é honesto! Todo cobrador trabalha honestamente! Eu sou honesto, Hermes! Nunca roubei ninguém! Nunca usei drogas! Bebo com o meu dinheiro, cara! Minha mulher não mora comigo, e todo final de semana, vou visitar os meus filhos, vou lá hoje. Ela não entende porquê eu bebo, mas vou dizer! Bebo porquê gosto, cara! É com o meu dinheiro, bebo quando quiser e quantas vezes quiser! Não é verdade, cobrador?!</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- É&#8230; Cada cabeça sua sentença.</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Isso, cara! To te incomodando?</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Não&#8230;</p>
<p style="margin-left:18pt;" class="MsoNormal">- Que bom.</p>
<p class="MsoNormal"><span></span>Perto do ponto de descida e já em pé, Dionísio diz, na verdade, grita, sem pausa: &#8211; Olhem para esse camarada aqui! O cobrador, o Hermes! É honesto, digno! O trabalho dignifica o homem! Esse cara vai longe! Gravem o que estou dizendo!</p>
<p class="MsoNormal"><span></span>O pobre do cobrador esforçou-se para rir, não conseguiu. As pessoas ficaram com medo. Todas calmas em seus assentos, cuidando da própria vida, exercendo o “crescei e multiplicai-vos” dia após dia. Estavam surpresos diante da figura do homem bêbado. Essas mesmas pessoas andando pelas ruas, já haviam acostumado com o espetáculo da fome dos garotos sem lar, do vício dos que cheiram cola para aplacar os desejos, daqueles que vivem sem sonhos, marginalizados. <span>Non-sense, ultra-chic?</span> Não<span>, </span>realidade<span>; a </span>imagem<span> do </span>bêbado<span> </span>veio<span> a </span>minha<span> </span>mente<span> </span>na<span> </span>semelhança<span> dos </span>poetas<span>, dos compositors,</span> pintores<span> e</span> escritores<span>. O</span> sujeito alí<span>,</span> falando só<span>, a platéia atenta e achando graça, compõe a metonímia do sujeito artístico. A bricolagem. O artista neste sentido é a porta para outras interpretações, o pensar estético, a metáfora. A análise parece infundada, transmutar o bêbado no sujeito artísitico? Calma moralistas, explico: esse pensamento é válido, no que há de mais profundo nessa relação: a quebra de barreiras. O artista e o bêbado(naquela atitude &#8211; o artista se define por sua obra, não pela pessoa), atacam, mudam, transformam, tiram-nos do estado de letargia e tentativa de autodomínio. O artista quer violência, não aceita passividade. Ambos preferem a loucura, o conhecimento aliado a intuição. E onde podemos encaixá-los? Na poesia. Nada transcende a poesia. Quer drogas<span> </span>ou caretice? Quer força e relaxamento? Guerra e paz? Poesia nos dá tudo. Na base da vórtice do conhecimento humano, estará a poesia. O bêbado era poeta. E não sabia. O bêbado não sabia dos meus pensamentos, mas fazia parte deles. E há tantas coisas que não sei.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span></span>Dionísio desceu. O cobrador suspirou aliviado. Querendo deixar sua marca na minha história, o motorista esbravejou: &#8211; vai, mala! – provocando nova onda de risos.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span></span>E Dionísio se foi. Soube pela manhã, três dias depois, lendo o destaque na página do jornal: “caminhão mata funcionário embriagado”, a foto destacava o short de Dionísio, perto do restante do corpo, irreconhecível.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span><span></span>Hermes, continuou sendo homem, com a função que lhe cabia. Honesto e digno, como quis Dionísio. Viverá e morrerá sendo cobrador.</span></p>
<p class="MsoNormal">&lt;!&#8211;[if !supportEmptyParas]&#8211;&gt; &lt;!&#8211;[endif]&#8211;&gt;</p>
<p><i>ps: Rubem Braga dizia que certas frases demitem jornalistas,</i> <i>eu diria que, certos textos acabam com blogs. abraços.</i></p>
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